07 outubro 2009

Jan'Ela



Nada senti quando ele pulou, não tentei impedir, sei que o esqueceria rápido, pois ele não me feriu como os outros.

Ele se jogou depois da nossa conversa, sabíamos que seria a última, mesmo assim, me calei. Ele não esperava por nenhum dizer. Pensei em perguntar: “por que eu?” mas já era tarde, foi melhor desse jeito.

Ele se jogou de costas e, engraçado, seu rosto, seus cabelos gris e a gravata marinho foram sumindo em questão de segundos... aprendi que as pessoas podiam desaparecer se quisessem. Ele deixou o dinheiro em cima da mesa, o dinheiro e o cigarro. Sorri, eu já não fumava mais.

O melhor de tudo era o alívio de sair daquele prédio com a consciência tranqüila, poder tomar o elevador social, sair pela porta da frente, me esquivar da multidão e contemplar por alguns minutos o corpo do meu pai espatifado no chão. Bonito pela primeira vez.

“É o meu pai, eu estive com ele agora, como isso foi acontecer?”- gritei.

Sabia que seria indiciada, talvez detida, mas nada daquilo importava, os motivos estavam mortos, também.

2 comentários:

  1. uma leitura emocionante. leve e ao mesmo tempo densa. gostei.

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